Receba o FOCO! em seu e-mail
 
Empréstimo de Ações - Quem tem, põe. Quem não tem, tira
Francisco Carlos Gomes (dir.) e Wagner Anacleto: BTC é mercado promissor para as corretoras
BTC aumenta a rentabilidade das carteiras de longo prazo e amplia a liquidez do mercado acionário

Uma das principais vantagens do Banco de Títulos (BTC) para o mercado acionário é o aumento da liquidez que ele proporciona. Quem vendeu ações e, por algum motivo, não as têm em carteira na data da liquidação do negócio pode pegá-las emprestado no BTC em vez de comprá-las obrigatoriamente no mercado à vista. O sistema de empréstimos, portanto, minimiza o risco de liquidação no mercado principal.

Ao funcionar como válvula de escape para quem precisa comprar grandes lotes de ações, o BTC atua ainda como redutor da volatilidade dos preços. Alguns mercados que não contam com esse mecanismo, como o da dívida externa brasileira, já registraram atrasos de 30 a 40 dias na entrega de papéis, como os C-Bonds. “O BTC permite a entrega das ações no dia aprazado”, afirma Francisco Carlos Gomes, diretor de Controle da CBLC.

Esta foi, por sinal, uma das principais razões que levaram à regulamentação do empréstimo de ações no Brasil. Na década de 1990, os investidores estrangeiros passaram a investir na Bovespa e exigiram essa garantia de liquidez. “O BTC aumenta a certeza de que o investidor irá receber suas ações na data combinada”, diz Wagner Anacleto, gerente de Controle de Risco da CBLC. Ao permitir a arbitragem entre os papéis na Bovespa, o BTC dá aos investidores nacionais igualdade de tratamento aos estrangeiros, que fazem arbitragem usando os ADRs emitidos pelas companhias no exterior.


Rendimento extra

O BTC também é vantajoso para quem tem posições de longo prazo e aproveita o mercado formal de empréstimos para aumentar a rentabilidade ou reduzir prejuízos de sua carteira. O doador cede as ações por tempo determinado – o prazo médio das operações é de 60 dias – e a CBLC garante sua devolução. Nesse tempo, ele não perde direito aos proventos pagos pelas empresas e ainda recebe uma remuneração extra: o novo sistema do BTC faz toda a administração de dividendos, bônus e juros. Em média, o aluguel de ações rende 6% ao ano. Como muitas empresas pagam proventos dessa magnitude, o BTC permite ao acionista dobrar o lucro dos papéis. “Esse aumento do retorno é muito importante, principalmente para os fundos de pensão, que têm metas atuariais a cumprir”, lembra Anacleto.

Os fundos de pensão e as pessoas físicas são os maiores doadores do BTC, afirma Álvaro Augusto de Freitas Vidigal, da Socopa. Segundo ele, os tomadores são geralmente as tesourarias de bancos e os fundos de carteira livre, que fazem operações de arbitragem. A segurança é importante. “Não muda nada para quem já investe em ações”, diz Vidigal. É um mercado 100% formal, com garantias e com o mesmo risco da CBLC. Nos Estados Unidos, os empréstimos são livres e não há uma clearing única.

Este ano, o BTC movimentou até o inicio de maio R$ 3,4 bilhões. As instituições financeiras responderam por 60% dessas operações. Os investidores estrangeiros são o segundo maior grupo, com 27%. Em seguida, aparecem as pessoas físicas, com 11%, e as pessoas jurídicas, com 2%. As ações mais negociadas são as que fazem parte do Ibovespa.

Vem aí o empréstimo compulsório de ações

Uma das novidades do novo sistema do BTC é permitir o empréstimo compulsório de ações. É um mecanismo criado para reduzir as falhas na liquidação das operações realizadas no mercado principal. Até agora, os investidores fazem o empréstimo voluntário: quem não tem papel para entregar, toma emprestado no BTC dentro de determinadas condições.

No início do próximo semestre, a CBLC irá incorporar o empréstimo compulsório. A clearing identificará os vendedores sem as ações necessárias para honrar suas operações e contratará automaticamente um empréstimo em seu nome no BTC. “Daremos certeza aos compradores que eles irão receber seus papéis em dia”, afirma Wagner Anacleto, gerente de riscos da CBLC.

Normalmente, menos de 0,5% das operações são liquidadas com atraso na Bolsa. A nova medida, ao minimizar esses riscos, será importante principalmente para as pessoas físicas, menos acostumadas com esse tipo de problema. Investidores institucionais, que giram grandes carteiras de ações, estão habituados com eventuais falhas na liquidação. De qualquer forma, todos serão beneficiados pelo empréstimo compulsório.