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As lições da sobrevivência
Scholes: "Vivemos num mundo mais caótico, com mais choques."
Clearings têm papel fundamental, diz o economista Myron Scholes

As empresas de liquidação, como a CBLC, têm um papel importantíssimo no mercado financeiro. Quem garante é o economista canadense Myron Scholes, prêmio Nobel de Economia em 1997 e coautor da clássica fórmula de Black-Scholes, de precificação de opções. "As 'clearing houses' ajudam a reduzir os riscos do mercado e garantem a longevidade do sistema", afirmou Scholes ao Boletim Foco! durante o 1º Congresso Internacional de Derivativos e Mercado Financeiro, promovido pela BM&F no final de agosto, em Campos do Jordão (SP). Confira trechos da entrevista exclusiva.

FOCO! - Com relação ao gerenciamento de riscos do mercado, qual é o papel das câmaras de liquidação?
MYRON SCHOLES
- Uma clearing tem um papel fundamental, pois fornece capital suficiente para garantir os contratos entre as partes. No mercado futuro, há um mecanismo bilateral em que uma parte tem um contrato com a clearing, que por sua vez tem um contrato com a contraparte. Eu não tenho um contrato bilateral com você, mas sim com a clearing, que obtém as garantias colaterais e faz as chamadas de margem diretamente com as partes. Não me preocupo com os riscos de crédito. Este papel é muito importante, pois elimina a minha necessidade de procurar pagamento do outro lado. Eu confio na clearing e na custódia e não preciso confiar na outra parte envolvida na minha operação. Isso reduz os atritos e proporciona a eficácia e a longevidade do sistema.

FOCO! - Do ponto de vista do investidor há, portanto, uma redução de riscos?
SCHOLES
- Sim. Quando uma clearing se interpõe entre duas partes, o risco de crédito é reduzido para perto de zero. Isso aumenta minha habilidade, permite que eu compre um contrato sem me preocupar com o risco tradicional de crédito que teria se fizesse uma operação diretamente com a outra parte. É isso que reduz os riscos numa sociedade.

FOCO! - As empresas de liquidação precisam ter modelos próprios de gestão de risco?
SCHOLES
- Sim. De fato, as clearings e as Bolsas de Futuros foram as primeiras a implementar modelos de gestão de risco, muitos anos atrás. Somente nos últimos dez a quinze anos os bancos começaram a usar sistemas de gerenciamento de riscos. As clearings e os seus membros têm usado sistemas muito sofisticados de risco para dar crédito aos corretores e aos investidores. Eles se preocupam com a sobrevivência financeira das pessoas, ensinam como fazer gerenciamento de risco e como fazer hedge dos riscos de crédito no mercado. As clearings também gerenciam quanto risco tendem a tomar. Seus sistemas decidem, diante da volatilidade do mercado, qual é a necessidade de margens e suas variações. Pessoalmente, eu nunca soube de uma clearing que tenha dado um calote nestes mais de cem anos de existência. A sobrevivência é um bom indicador de que os seus sistemas de gerenciamento de risco funcionam.

FOCO! - Uma maneira de fazer gerenciamento de risco é olhar para trás e ver o comportamento dos mercados em situações de crise. Isso é suficiente, ou seria necessário agregar instrumentos que possam inferir sobre o futuro?
SCHOLES
- O passado te dá informações, mas elas podem ser insuficientes. A eficácia do sistema consiste em usar avaliações dos choques passados e, ao mesmo tempo, adicionar elementos subjetivos quando os dados passados forem insuficientes diante das circunstâncias atuais. Você está sempre fazendo um trade off dos colaterais. Se a clearing exige muitos colaterais, isso acaba ferindo os mercados. Existe sempre uma tensão entre a comunidade de corretoras, que quer menos colaterais para poder operar mais, e as clearings que precisam assegurar a sobrevivência e a ausência de calotes.

FOCO! - O senhor diz que os modelos de gerenciamento de risco são ainda muito embrionários e ainda há muita pesquisa a ser feita neste campo. Por quê?
SCHOLES
- As iniciativas nesta área ainda são muito localizadas, como no caso das clearings. As empresas industriais e os bancos de investimento, por exemplo, têm muito mais motivos para se preocupar. Uma clearing faz a compensação diariamente e os bancos têm negócios que duram 20 anos. O gerenciamento de risco é diferente quando se tem o horizonte de longo prazo. Os intermediários financeiros têm de se preocupar com os riscos de suas atividades, com a sua transparência, com as suas ações, com os choques, com as crises, com problemas de transferência de risco, com a liquidez. E, ao mesmo tempo, maximizar seus lucros.

FOCO! - Depois da quebra do LTCM, o que houve de inovação em termos de gerenciamento de risco pelos hedge funds?
SCHOLES
- A crise financeira de 1998 provocou grandes perdas não só ao Long Term, mas também a muitos bancos. Depois disso, aumentou a atenção aos sistemas de gerenciamento de risco, no sentido de não se confiar tanto nas tecnologias de VAR (value at risk). As pessoas passaram a compreender que as estruturas de correlação usadas nessa tecnologia não funcionam em tempos de grande caos. Muitas instituições financeiras com posição proprietária decidiram que não poderiam mantê-las e enfrentar os riscos de afetar seus outros negócios. É melhor transferir os riscos para fundos de hedge e outros intermediários que possam assumir os riscos. Nos últimos cinco anos, as instituições financeiras têm procurado conhecer melhor todos os riscos às quais estão sujeitas para que possam enfrentar novos choques. O sistema bancário, que já perdeu muito dinheiro, tem suportado bem os choques de mercado dos últimos anos.

FOCO! - Isso quer dizer que vivemos num mundo mais seguro hoje?
SCHOLES
- Não! Vivemos num mundo mais caótico, com mais choques. Quando há mais choques, ficamos muito mais flexíveis, aprendemos a olhar as coisas de maneira diferente. Se você dirige numa estrada com muitas pedras, dirige de um jeito diferente de que em outra mais segura. Quanto menos certeza se tem, mais instabilidade se cria. Você pode dirigir um Hummer (o jipe da General Motors usado pelo Exército americano): se encher bem os pneus, não vai sentir nada. Mas isso não significa que os choques não estejam lá fora afetando o Hummer.

FOCO! - Como o senhor vê o futuro dos mercados futuros?
SCHOLES
- Eles vão continuar a se desenvolver, são muito competitivos com relação às outras maneiras de se fazer as coisas. Acredito na sobrevivência: o que sobrevive e cresce tem valor.

FOCO! - O senhor está feliz com o uso de sua criação, a fórmula de cálculo de prêmio de opções?
SCHOLES
- Sim, estou. Um pai só pode liderar seus filhos até certo ponto. Aprendi com os meus que, às vezes, as crianças fazem coisas que você não gosta, outras vezes, te surpreendem. Se você criou algo de valor - e naquela época eu não percebia o valor do que estava criando e a evolução que teria - , precisa entender que alguns irão usar aquilo de maneira errada. Outros, se usarem de maneira certa, criarão valor para a sociedade. É ótimo.