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| Marciano do BC: clearings têm papel
importante no controle de risco sistêmico. |
A CBLC adota sofisticados mecanismos de gerenciamento e controles
de riscos para garantir a maior segurança possível aos
participantes do mercado acionário brasileiro. Essa prática
é acompanhada de perto não apenas pela Comissão
de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado de capitais,
mas também pelo guardião da moeda brasileira, o Banco
Central (BC).
Nesta entrevista ao Foco!, o chefe do Departamento de Operações
Bancárias e de Sistema de Pagamentos (Deban) do Banco Central,
José Antonio Marciano, discorre sobre o gerenciamento de riscos
no Brasil.
FOCO! – Qual é a importância do
gerenciamento de risco para o mercado e seus participantes?
JOSÉ ANTONIO MARCIANO – O gerenciamento
de riscos no mercado financeiro é um dos principais pontos
de interesse dos bancos centrais, presente que a estabilidade financeira
é condição necessária, entre outras coisas,
para a boa condução da política monetária.
Assim é que os bancos centrais, muitas vezes de forma coordenada,
estabelecem regras, do que são exemplos as exigências
mínimas de capital para as instituições financeiras,
baseadas na avaliação de risco de suas operações
ativas. No tocante ao controle do risco sistêmico (risco de
quebra generalizada de instituições financeiras), preocupação
maior dos bancos centrais em relação ao assunto de que
estamos tratando, são particularmente importantes os princípios
fundamentais estabelecidos para os sistemas de liquidação
considerados sistemicamente importantes, seja no que diz respeito
às transferências de fundos interbancárias, seja
no que diz respeito às operações com ativos financeiros,
entre eles os títulos e valores mobiliários. Sem qualquer
sombra de dúvida, o gerenciamento de riscos é um dos
aspectos fundamentais para a manutenção de um sistema
financeiro robusto e sadio, condição necessária
para seu desenvolvimento. É evidente que operar num sistema
com tais características traz muito maior segurança,
tornando o mercado de títulos e valores mobiliários
mais atrativo para todos, tanto no ambiente doméstico, como
no internacional.
FOCO – Como o Banco Central vê essa
questão, qual é o seu papel e como atua junto ao mercado?
MARCIANO - O Banco Central, na qualidade de órgão
regulador e supervisor das instituições financeiras,
desempenha um papel importante no que diz respeito ao gerenciamento
de riscos no mercado financeiro, aspecto de fundamental importância
para a estabilidade financeira, conforme já mencionado. Nesse
contexto, além da exigência mínima de capital,
o Banco Central estabelece regras prudenciais voltadas para o controle
de riscos, de observação obrigatória pelas entidades
sob sua supervisão. No que diz respeito ao sistema de pagamentos,
ambiente no qual a CBLC se insere, o Banco Central também atua
de forma especial, cumprindo-lhe promover sua solidez, normal funcionamento
e contínuo aperfeiçoamento, conforme determinação
do Conselho Monetário Nacional.
Por atribuição legal, compete também ao Banco
Central identificar os sistemas de compensação e de
liquidação sistemicamente importantes, assim entendido
aqueles que, pelo volume e natureza dos negócios, se apresentarem
falhas, podem colocar em risco o normal funcionamento do sistema financeiro.
Esses sistemas constituem o foco de interesse maior do Banco Central,
no que diz respeito ao controle do risco sistêmico. Por isso,
eles se sujeitam a disposições especiais, estabelecidas
pelo Banco Central por intermédio da Circular 3.057 (conhecida
no mercado como o “regulamento das clearings”), destacando-se,
entre elas, as exigências de controle dos riscos de liquidação
e de adoção de adequados mecanismos de proteção.
O sistema de compensação e de liquidação
operado pela CBLC é conceituado como sistemicamente importante,
por envolver operações com ativos.
Uma vez autorizado o funcionamento de um sistema de compensação
e de liquidação, a adequação de seus mecanismos
e salvaguardas de proteção é avaliada pelo Banco
Central, utilizando para isso modernas metodologias adotadas internacionalmente.
No caso de sistemas de liquidação de operações
com títulos e valores mobiliários (exceto títulos
públicos e títulos emitidos pelos bancos), o Banco Central
atua em conjunto com a Comissão de Valores Mobiliários.
FOCO – O marco regulatório sobre o
tema é adequado no Brasil? Como estamos em comparação
a mercados de países desenvolvidos?
MARCIANO - O atual marco regulatório no Brasil
é adequado. O Banco Central tem acompanhado de perto as questões
relacionadas ao gerenciamento de riscos, inclusive participando de
diversos fóruns internacionais que tratam da matéria.
Especificamente no que diz respeito aos sistemas de compensação
e de liquidação, posso assegurar que o Brasil está
em linha com os principais países da comunidade financeira
internacional. Com a recente reforma de nosso sistema de pagamentos,
cujo marco referencial é a implantação do Sistema
de Transferência de Reservas (STR) em abril de 2002, passamos
a observar as recomendações e os princípios gerais
estabelecidos pelos principais organismos financeiros internacionais,
seja no que diz respeito à liquidação de transferências
de fundos interbancárias, seja no que diz respeito à
liquidação de operações com títulos
e valores mobiliários. Na verdade, em alguns aspectos, adotamos
procedimentos que vão além das recomendações
desses organismos internacionais. É o que acontece, por exemplo,
com os prazos de liquidação observados nas operações
com títulos e valores mobiliários, que no Brasil são
sempre iguais ou inferiores aos prazos limites recomendados pelos
citados organismos internacionais.
FOCO – Há práticas que deveriam
ser adotadas aqui e ainda não foram? Quais?
MARCIANO - No que diz respeito aos sistemas de compensação
e de liquidação, área que conheço mais
de perto, posso assegurar que já adotamos as melhores práticas,
incorporadas na Resolução 2.882 e na Circular 3.057,
que são as normas básicas do Sistema de Pagamentos Brasileiro.
FOCO – Qual é o papel da CBLC nessa
questão? Quais são os pontos fortes e/ou fracos do gerenciamento
de risco pela CBLC?
MARCIANO - No atual desenho do Sistema de Pagamentos
Brasileiro, as câmaras de compensação e de liquidação
desempenham papel muito importante para o controle do risco sistêmico.
A CBLC, assim como as demais entidades operadoras de sistemas considerados
sistemicamente importantes, foi autorizada a funcionar pelo Banco
Central por observar as melhores práticas relacionadas ao gerenciamento
de riscos e por adotar adequados mecanismos de proteção,
que lhe possibilitam assegurar a liquidação das operações
aceitas. |