Encontro da CCP-12 na sede da CBLC discute a criação
de padrões globais para as clearings
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| George Hender, presidente da CCP-12: “Estamos
construindo uma confiança mútua”. |
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Os representantes das “clearing houses” mais importantes
do mundo reuniram-se em São Paulo, no último 11 de dezembro,
na sede da CBLC. Foi a reunião do CCP-12, grupo de 20 instituições
que atuam como contrapartes centrais de ativos e/ou derivativos dos
seguintes países: Austrália, Brasil, Canadá,
Estados Unidos, França, Hong Kong, Itália, Inglaterra,
Japão, México, Cingapura, Alemanha e Suíça.
O advogado americano George S. Hender, presidente da CCP-12 e vice-presidente
da The Options Clearing Corporation (OCC), de Chicago, conversou com
o boletim Foco! logo após o encontro. Ele manifestou preocupação
quanto à intenção dos órgãos reguladores
dos mercados internacionais em criar padrões globais para as
clearings. Leia abaixo os principais pontos da entrevista.
O mercado internacional de ações funciona 24 horas
por dia, seis dias por semana. Quais são as principais preocupações
dos investidores globais?
Uma das coisas mais preocupantes para os investidores globais
é a segurança e a solidez do dinheiro que estão
investindo. Obviamente, eles sabem que há riscos de perder
dinheiro no investimento, mas não querem que essa perda seja
causada por uma falha no sistema da bolsa ou da clearing. Então,
quando as pessoas acessam o mercado global, uma das coisas que estão
avaliando é a segurança e a solidez dos mercados onde
investem.
O que é necessário para dar segurança aos
investidores?
É importante que a organização que faz a custódia
e a liquidação das transações seja segura
e sólida. Se não for, vai afastar negócios. Uma
das coisas que nós temos tentado fazer na CCP-12 é olhar
o mercado global e ver o que significa ter uma contraparte central
garantidora. Que tipos de responsabilidades nós temos? Que
elementos políticos são necessários para sermos
reconhecidos como sólidos? Nós discutimos esse tipo
de assunto. É difícil definir especificamente os requisitos
de cada mercado, porque cada um é diferente do outro. Mas um
dos pontos óbvios é um sistema confiável.
O que é um sistema de liquidação confiável?
Seus computadores têm que ser projetados para funcionar todos
os dias. Você não pode ter um sistema inoperante por
dois dias, porque você está no mercado eletrônico.
Se isso acontecer freqüentemente, as pessoas vão dizer:
“O mercado está se movimentando, quero mudar minha posição,
mas não posso. Vendi posições e não posso
resgatar meu dinheiro porque os computadores estão fora de
sistema”. Este é um requisito imprescindível.
O que mais é necessário?
Há também a parte financeira. É preciso ter sistemas
de gerenciamento de riscos que avaliem adequadamente o risco da clearings
e as posições que ela tem. É uma questão
de três aspectos. Há as condições para
se tornar membro. É preciso que haja um padrão, não
é qualquer um que pode se tornar membro da clearing. É
preciso estabelecer critérios financeiros, operacionais. Os
participantes podem ter capital suficiente para vender, negociar,
mas se não tiverem condições operacionais, é
tão ruim quanto não ter capital.
E o segundo aspecto?
Você tem que ser capaz de ter um sistema de gerenciamento de
riscos. Precisa saber estimar os riscos dos participantes. E, aliado
a isso, ter um sistema bancário seguro e sólido, que
permita a liquidação financeira adequada das operações.
E o terceiro ponto?
Precisa ter uma espécie de fundo de liquidação.
Se o pior acontecer e a clearing perder um membro, terá recursos
suficientes para cobrir essa perda. Ou é necessário
que haja um mecanismo que, quando não houver recursos suficientes,
se possa recorrer aos outros participantes e levantar fundos com eles.
Estes são os critérios básicos para ser uma contraparte
central garantidora bem-sucedida, seja no Brasil ou nos Estados Unidos.
A CBLC e o mercado brasileiro atendem a todos esses requisitos.
Como estamos em relação aos outros mercados do mundo?
As Bolsas e as clearings brasileiras têm feito um trabalho
excelente, mirando em outros mercados no mundo e definindo a razão
do sucesso deles. Estão buscando, na parte operacional, ter
o que é necessário para que o ambiente de mercado seja
seguro e sólido, para que as pessoas invistam.
Além de prover um bom arcabouço operacional e de
gerenciamento de riscos, o que uma clearing deve fazer para assegurar
aos investidores de que têm um sistema seguro e sólido
para operar?
Não há uma solução de curto prazo
para esse problema. A solução é educação.
Depois do crash de 1987 nos Estados Unidos, o volume no mercado de
derivativos caiu mais de 40%, porque as pessoas perderam dinheiro,
perderam a confiança. Ainda hoje temos um programa educacional
que atinge o pequeno investidor, o investidor institucional, os fundos,
os corretores. Precisamos educá-los sobre o produto opções.
Qual o papel das corretoras, dos bancos, das pessoas que falam
com os investidores para atraí-los ao mercado de derivativos
de ações? Esta é uma tarefa da clearing ou dos
corretores?
Nós fracassamos quando procuramos os intermediários
em 1987. Procuramos as grandes empresas com as quais tínhamos
negócios e elas disseram que estavam desencorajando os investidores
a usar os produtos derivativos. Isso, devido aos processos judiciais
que enfrentaram depois do crash. Então, percebemos que se nós
queríamos reconstruir o mercado, não poderíamos
contar com os intermediários para isso.
Qual foi o maior problema?
Era o investimento arriscado, inadequado para as pessoas que os estavam
usando. Os intermediários queriam acrescentar coisas ao produto
e alguns usos que aplicaram a ele não eram corretos. Havia
vovós vendendo a descoberto, situações malucas
como essa. Coisas totalmente desnecessárias e muito arriscadas.
Então, tivemos que começar do zero e reeducar o público
de todo país, de todo o mundo. Fizemos vários seminários
sobre o uso dos produtos, sobre como os mercados funcionavam nos Estados
Unidos, por que esse era um bom produto, um produto seguro, por que
era bom investir na Bolsa, na avaliação do risco (rating)
das clearings. Vagarosamente, mas de forma segura, os mercados voltaram.
Se não tivéssemos feito tudo isso, acho que as Bolsas
provavelmente não teriam retomado os negócios tão
rapidamente e os produtos nunca teriam a proporção que
têm hoje.
Para crescer e se fortalecer, o mercado de ações
brasileiro deve se popularizar. Como educar os investidores de que
este pode ser um sistema sólido, mas ainda assim é uma
opção de investimento arriscado?
Vocês têm que fazer o que nós fizemos. O melhor
das opções está em seus múltiplos usos:
pode ser o investimento mais conservador ou o mais arriscado do mundo.
Ou ainda, algo no meio termo. Se você quer o investimento mais
conservador do mundo, as opções são ideais para
você. E se você quer especular, elas são ainda
melhores, porque há mais chances de ganhar. Novamente, é
uma questão de educação. As opções
são uma ótima ferramenta de investimento, não
há melhor. O problema é que o intermediário mediano
não entende esse produto, ele só entende de ações,
se elas vão subir ou cair. Muitos profissionais não
sabem como usar opções adequadamente. Outro problema
é que você não pode ter um mercado de derivativos
bem sucedido se não houver um mercado à vista forte.
A outra coisa necessária é a volatilidade. Se você
tem volatilidade e um mercado à vista forte, as opções
devem ser uma escolha natural. Outra coisa que o Brasil deveria fazer
é vender mais seus produtos financeiros para os profissionais
fora do país.
O que tem sido foi feito pelo CCP-12 para melhorar a eficiência
da indústria de serviços financeiros globais?
Estamos todos no mesmo negócio e tentando obter sucesso
nos nossos mercados. Nos ajuda muito ver o que está acontecendo
no Brasil, na Coréia. Porque você aprende o que eles
estão fazendo com sucesso e aprende o que não fazer
com seus erros. O outro ponto importante é que estamos construindo
relações para que, se tivermos problemas com uma empresa
global em nosso mercado e soubermos que isso vai causar problemas
em outros mercados também, seremos capazes de falar com quem
está gerenciando os riscos dessa empresa nos Estados Unidos
ou em Londres, por exemplo. Isso pode ajudar muito a solucionar o
problema financeiro. Muitas vezes, a pior coisa que você pode
fazer é desligar a instituição do mercado em
apenas uma jurisdição. É muito melhor tentar
resolver o problema de uma forma global e dizer “Vamos tentar
resolver isso, liquidar as posições”.
Há maior confiança entre as CCPs?
Estamos construindo uma confiança mútua. Se houver um
problema, nós poderemos ligar um para o outro, nós nos
conhecemos agora. Esta é a primeira vez na história
em que o mercado de derivativos e o mercado à vista agem conjuntamente.
Estamos sentados na mesma sala com representantes do mundo todo. Todos
os grandes mercados estão representados nesse grupo. Se você
quer ter um mercado bem sucedido, os usos do mercado de derivativos
deveriam ser aplicados no mercado à vista, e vice-versa. E
a eficiência com que o mercado à vista se relaciona e
interage com o de derivativos, com sua liquidação e
com a Bolsa, é essencial para o sucesso.
Como é a relação das CCPs com os órgãos
reguladores?
Somos todos regulados um grande número de órgãos.
Nossa experiência com os reguladores tem muito valor. O IOSCO,
grupo internacional que está analisando a segurança
e solidez do sistema de liquidação, aprendeu que este
elemento é essencial. É mais importante que a bolsa,
na verdade. Se você perde o sistema de liquidação,
ou perde a confiança nele, você não tem mercado.
Os bancos centrais e os reguladores entendem hoje que a liquidação
é a vulnerabilidade dos mercados. Eles estão tentando
criar padrões globais para as clearings atingirem em todo o
mundo.
Isso é bom?
A única coisa que não queremos é que sejam impostas
exigências tão altas aos mercados que elas possam afastar
e impedir os negócios. Em gerenciamento de risco, é
possível administrar uma clearing e nunca ter uma perda. Basta
exigir muita margem. O problema é que ninguém vai usar
o teu mercado, porque as margens serão muito altas. O IOSCO
irá publicar um relatório e nós não tivemos
nenhuma influência nisso. É importante que nós
tenhamos alguma influência, porque eles não conhecem
esse negócio tão bem quanto nós. Então,
decidimos que nós vamos tentar dar nossa contribuição,
dizer o que achamos que eles precisam ouvir para tomar decisões
corretas em relação aos padrões.
Como será a contribuição do CCP-12 nesse
debate?
A maneira de influenciar alguém é por escrito. O IOSCO
irá publicar um estudo no primeiro trimestre do ano que vem.
Vamos fazer um white paper, com o que consideramos critérios
essenciais para uma clearing operar nos mercados a vista e de derivativos.
Vamos apresentar este documento ao IOSCO. O G30 está fazendo
a mesma coisa. Nosso próximo projeto é tentar influenciar
o G30 para que publiquem o mesmo tipo de recomendações.
Quais as possibilidades de integração dessa rede?
Podemos prever algum tipo de rede de liquidação entre
as clearings no futuro?
Não, há muitos interesses de investidores envolvidos.
Eu poderia vir ao Brasil e sugerir a fusão de sua clearing
com a minha: temos rating AAA, bilhões de dólares em
fundos de nossos membros, você nunca terá problemas para
convencer os corretores ou os bancos a usar teu mercado porque segurança
e solidez nunca serão um problema. Soa como uma boa idéia.
O problema é que você não quer abrir mão
da flexibilidade de ter sua própria clearing. Então,
não acho que isso vá acontecer no curto prazo.
Qual é o maior risco dos mercados de ações
atualmente?
O maior risco é o desconhecido. Algum grande ataque terrorista
contra o seu país, o meu. Uma bomba nuclear, Antrax, essas
coisas. Me surpreende o fato de que ainda não tenham acontecido
depois de 11 de Setembro.
E o risco econômico?
A situação econômica está melhorando nos
Estados Unidos. O meu maior temor é que criamos um tremendo
déficit público para financiar nossas ações
no Afeganistão, no Iraque, na nossa segurança. Não
podemos continuar a aumentar esse déficit sem gerar uma tremenda
inflação. Vocês conhecem melhor esse problema
do que nós. |